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dictaphone


13.1.12
procurando alguma coisa pra fazer como se fosse tarde

mas a noite tinha apenas começado e eu, de forma bastante voluntária, até, decidi fazer um movimento individual pelo fim da distância entre as pessoas.
o telefone dela tocou uma, duas, algumas, muitas vezes. liguei no celular: caixa de mensagem imediatamente. "deve estar falando com alguém", pensei. "a ex-namorada", pensei. fui tomar um banho, ler alguma coisa ou desenhar a parede perto da cama, tomar um chá – qualquer coisa que me impedisse de ligar de novo, e de novo de novo, pro celular, pro telefone, pra alguma amiga dela. não é fácil aprender rapidamente, com tantos anos de pedagogia novelística direta ou diluída, que desejo e perseguição são coisas bem diferentes.
no banho, decidi me masturbar. lembrei de uma tarde há alguns anos, num dia desses de chuva e sol, quando pedaços de céu muito azul e limpo, azul novo, lavado, aparecem atrás das ondas gordas de nuvens cinzentas. os raios de sol que conseguem passar pelos buracos de azul vão lambendo de dourado as gotas espessas de chuva e o vento, por sua vez lambendo o frio nos braços surpreendidos pela chuva no meio do caminho, traz montículos de pele ao mesmo tempo em que sopra um pouco do ensaio de calor, afinal eram 3, 3 e meia da tarde.
antes de gozar eu me toco que masturbação no banho tem o inconveniente de ser muito pouco sustentável, e se água ainda não é um luxo nos condomínios verticais ou horizontais em que vive a camada média, pra muitas pessoas já o é, de fato, e há tempos.
desligo o chuveiro, adio o gozo pra outra ocasião, já que o prazer não precisa ser um imperativo, e vou de toalha mesmo ligar de novo pra ela.
o tempo parece estar passando mais rápido, sendo devorado por sei lá que avidez de rotinas tecnocráticas, mas o que sei é que já são 9 e tanto da noite, e entre o incômodo da toalha molhada e o carinho da cortina mordiscando meus calcanhares, consigo falar com ela até tranquilamente, na verdade, e combinamos um cinema ou teatro ou um suco, ou simplesmente sentar embaixo de uma árvore num ponto equidistante entre a casa de cada uma, e conversar um pouco – mas não sobre nossas ex, espero, pelo menos não agora, não nesse primeiro momento.
só depois de desligar o telefone é que percebo que combinamos não tão combinado assim, sem um horário preciso, nem um dia talvez, mas agora estou muito leve e relaxada com o banho pra apressar qualquer entendimento. assim mesmo, levo a sério minha resolução de ano novo de passear sempre que tiver vontade e condições favoráveis, então visto uma roupa que não pijama e saio pela noite, noite alta já, pra sentir o ar fresco do verão preenchendo narinas, céu da boca, pulmões, cotovelos, ânsias, solidões programadas ou inevitáveis, e tomando conta (de), trazendo alívio (pr)a todos os poros da existência que compartilho comigo. esse tipo de solidão, na verdade, é um luxo, uma dádiva, uma ponte imaginada pelo fim da distância entre as pessoas com elas mesmas.
comigo mesma, no caso.

Posted at 11:18 pm by kinetic
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8.1.12
arcano maior

"nasci e vi o seu sol"
"nasci e vi o seu sol"
"nasci e vi o seu sol"

acordei no meio da noite com essas palavras no meio geográfico de um sonho muito curto que tinha só começado. como acordei, não continuou. mas permaneceu. ganharia volume e materialidade em qualquer retalho de papel que me aparecesse perto da mão e disponível a fazer sentido escrível na pouca luz da noite já atravessada em metade da sua extensão escura. ali naquela ponta é que o sol se apresenta, e quase do exato lado oposto é onde se recolhe. as palavras tomaram um pedaço da minha cabeça durante o dia inteiro, a tarde sonolenta, (e, de novo,) a noite. (absurdamente,) a expectativa: um novo pedaço do mesmo sonho que conectasse aquelas palavras a algum destino grandioso
ou
as lançasse no turbilhão macio da nonsensatez dos sonhos. o devaneio. e pronto. later on, at the coffee shop, a dimensão do "pecado" seria novamente negociada, ampliada, revogada, e finalmente [no entanto?] dispensada. um instante depois de me meter nesses pensamentos, entretanto, eu vi: que nem um rasgo de vento frio continua uma intuição discreta mas categoricamente anunciada, senti uma sombra clara passar por mim, por trás do meu ombro direito, caminhar sem tocar o chão até quase o esquerdo, um passo flutuante recuado enfim, e postar-se atrás de mim e espiar por cima da minha cabeça aquelas palavras que eu andava trabalhando numa folha reutilizada há cerca de um quarto de hora –
"se tanto"/"nem isso"/"ou menos".

Posted at 11:43 am by kinetic
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18.11.08
oco de vidro

pintei unhas natalinas.
ela ligou dizendo que viria com alguma coisa pra conversarmos.
fiquei apreensiva porque boa notícia as pessoas não se agüentam, falam logo.
natalinas é assim: uma camada de esmalte cintilante por baixo, com duas camadas de vermelho rebu. natalinas porque tem cor de bola de árvore de natal. aquelas bolas ocas de vidro fosco pintado de vermelho cintilante.
ela ainda não chegou. vou passar pano na casa. acho que ela vai terminar comigo. será que ela vai terminar comigo? sonhei que ela queria terminar comigo.
quando eu tinha uns 14 anos conheci a camila, a primeira mulher por quem me apaixonei. ela era amiga da bárbara, com quem tenho contato até hoje. encontrei com a bárbara no pátio y ela tava junto. ela me viu com aquelas unhas enormes pintadas de vermelho rebu y perguntou 'você não tem vergonha de usar esmalte de puta não?'. não lembro o que respondi, mas ela disse 'sempre sou sincera, é meu maior defeito'. ela é escorpiana.
sinceridade pode mesmo ser um defeito, não a sinceridade em si, mas a falta de cuidado que costuma acompanhar ela em situações desse tipo. 'quero ficar com a fulana. desculpa, mas eu sou sincera'. ou o mais descuidado ainda, que se finge de cuidadoso porque teve aviso prévio: 'eu te disse que eu era assim, fui sincera'. como isso eximisse as pessoas de alguma responsabilidade. agora ela ligou há algumas horas dizendo que passava aqui depois do trabalho pra gente conversar *uma coisa*.
eu ainda nunca tinha trepado com mulheres, então não poderia adivinhar que aquelas unhas enormes poderiam ser um forte indício de que eu não era sapatão. na época eu não 'era', mesmo. mas agora são unhas natalinas muito curtas. com o fetiche do esmalte saindo de dentro dela meio melado. porque aí, embaixo do gozo dela, dá pra ver, embaixo das camadas vermelhas, o cintilante.
quando ela chegar vou tentar parecer naturalmente não-ansiosa. mas ela sabe que sou ansiosa. posso disfarçar dizendo que é secura pra gente trepar logo.
ela pensa que eu adoro lavar louça. porque sempre que ela vai lavar alguma coisa eu digo 'não, preta, deixaí que eu lavo'. eu não adoro,  pelo contrário, acho péssimo porque acaba com meu esmalte. mas ela deixa a torneira aberta tempo demais, às vezes ela vira pra mim pra dizer alguma coisa com o prato já enxaguado na mão mas a água fica lá, caindo. isso me deixa doida. então prefiro estragar o esmalte. usar luva eu não uso, que é a derrocada das mulheres contra a glamourização da confinação doméstica. então eu prefiro me fuder do que usar um símbolo  do refluxo?
prefiro trepar com ela do que conversar a relação. é uma merda dizer isso, mas é verdade. outras primatas fazem assim.  tecnologia de ponta pra resolução de conflito. mas a gente não, costuma ficar horas discutindo coisas irracionalizáveis pra depois tentar conciliar na cama, tendo que transformar mágoa em tesão.
se eu abrir a janela, quando chegar ela reclama. do frio, do vento. posso dizer que eu queria secar logo o esmalte. mas se ela reclamar de mim, o que vou poder dizer? não dormi bem o resto da noite depois daquele sonho. fiquei me sentindo oca de  vidro por dentro. acho que tudo bem ela querer terminar comigo. mas se ela reclamar de alguma  janela que não posso fechar,  o que vou poder fazer? além de sentir falta dela.
eu não tenho medo de ficar sozinha, tenho medo da tristeza que vou sentir se ficar sem ela.

Posted at 07:19 pm by kinetic
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12.11.08
café requentado

ela pegou as coisas y foi embora. como eu não tava em casa, me senti traída. pras nossas amigas em comum eu afirmei publicamente que tinha me sentido tão traída - pra algumas eu disse até que mais traída - quanto daquela vez que ela saiu, ficou bêbada, agarrou outra numa festa y ficou na porta de casa até amanhecer o dia porque achava que não merecia dormir comigo.
fiquei chateadíssima com um milhão de coisas. quis morrer. quis chorar, chorei. arranquei todas as fotos pregadas nas paredes, dentro da portinha do armário, joguei fora a cafeteira italiana que ela comprou pra mamãe num brechó pelo seu milésimo aniversário. ela ainda não sabia que mamãe odiava ganhar presente pra casa. mamãe não sabia que namorávamos.
essa é outra das coisas que me deixa mais triste. ela não tinha entrado só na minha vida... não é uma coisa de jogar na cara, não é isso. também porque isso não é o que mais acaba comigo. mas não tenho como esquecer a cara passada de mamãe quando voltamos do mercado naquele dia, quase noite. com um doce pra ela. nem um bilhete, recado no espelho,  nada:
só a porta do lado dela do armário aberta, as gavetas vazias pra fora. uma calcinha minha perdida ali. na hora pensei 'poxa, ela podia pelo menos ter colocado numa das minhas gavetas', mas acho que ela fez isso pra me deixar mais solitária ainda. fico procurando coisas que me façam sentir raiva dela. que é pra ver se assim paro de chorar sofrer y me sentir coitadinha.
quem falou que a coisa mais importante da vida é amor-próprio não sabe de porra nenhuma. a coisa mais importante da vida, pra mim, nesse momento em que acabei de perder ela, é exatamente poder dormir com ela embaixo do teto mofado da sala. depois de termos trepado em silêncio pra não acordar mamãe. nossas respirações indo y vindo juntas, ficando devagar.
café da manhã amargo. a novela de mamãe. agora ela pode assistir tv até mais tarde, sozinha na sala de novo só dela. não sei se ela ficou realmente triste mas feliz não ficou. só vi ela triste quando viu que eu era sapatão. mas depois aceitou numa boa, elas conviviam até melhor que nós duas. não sei por que ela foi embora, eu tinha trazido seu doce preferido naquele dia.

Posted at 06:11 pm by kinetic
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16.9.08
uma história sugerida

(então a história é assim: bate na porta. ela abre a porta. entra e abraça ela - a namorada. diz que tá muito cheirosa. ouve a resposta. sabe. sabe que ela não usa perfume. então pergunta:)


SIMONE: é cheiro de mulher? [quase afirmando.]
LAURA: se eu que tô com perfume, é né. [meio debochada...]
SIMONE: você não usa perfume. [acusativa]
LAURA: minha mãe veio aqui. [classificação do tom: indisponível]
(então é uma história sobre ciúme monogâmico?)
SIMONE: já conheci tua mãe. ela não cheira assim.
LAURA: que nariz de leproso hein?
SIMONE: "leprosa."
LAURA: a expressão que é assim, "nariz de leproso".
SIMONE: mas o nariz é meu, então é "leprosa". não muda de assunto.

(segue-se uma longa D.R[1], irritante o bastante pra não precisar ser reproduzida aqui. se reproduzida, talvez entendêssemos as disposições do casal, suas percepções acerca de confiança, companheirismo, ciúme, desgaste, até amor. talvez desse até pra conhecermos algum fato[2] que justificasse o comportamento de uma, ambas ou ainda terceiras não presentes aqui mas protagonistas de momentos diversos em que a relação do casal tivesse outros termos, diferente, digamos, de monogamia compulsória)

LAURA: a moça da faxina tirou quando limpou! procura na gaveta!
SIMONE: que moça da faxina? quem é essa moça da faxina? não era só sua mãe?
LAURA: ela veio com a minha mãe, é a faxineira dela, não falei?

(pausa grave y pesada na D.R. não conhecemos simone muito bem – a exposição sumária do encontro impede algum aprofundamento –, mas agora poderia ser pertinente explicitar que ela é uma mulher negra de pele marrom-avermelhada, o que não torna impossível, aliás, ao contrário, torna até previsivelmente não surpreendente uma descoberta da possibilidade de que sua mãe tivesse sido empregada doméstica ou faxineira[3] antes de conseguir terminar, à noite, não em supletivo mas no ensino regular - pra garantir mais solidez -, os estudos que a permitiriam passar num concurso público pra funcionária administrativa de uma escola, onde escolheria o turno noturno por razões nítidas. essa simples informação sobre simone, contudo, nos traria o risco de tornar a história muito panfletária, o que pode desagradar o público não-militante, assimilado, conformado ou, simplesmente, que fez escolhas de estar-no-mundo diferentes das nossas. seria melhor, então, continuar escrevendo uma história sobre ciúme? se sim, ela prosseguiria com um diálogo maizomenos assim:)

S. você tá mentindo.
L. você tá louca! não agüento isso, muito ciúme!
etc

(, seguido de uma cena de sexo lésbico quente, sexo de reconciliação, em que fosse descrita minuciosamente a trepada das personagens, mencionando-se, inclusive, o uso de camisinha (masculina recortada, no caso de falta da feminina. "tecnologia lesbiana"; a feminina é cara, enquanto a outra é distribuída, mesmo que aquém da demanda, em postos de saúde, por exemplo) y outras medidas de sexo lésbico seguro. essa cena poderia, até, trazer à história:

a) apelo popular, talvez pela repercussão que cenas de sexo costumam ter numa sociedade tão pretensamente liberada mas extremamente conservadora y reprimida como esta[4];
b) reação dos setores (reacionários) daquela citada sociedade (igreja, estado, família – cada qual com seu aparato policial, i.e., quando não usam o mesmo);
c) uma pedagogia sexual pra mulheres, tão escondida, semi-inexistente, precária, necessária y sabotada pela supremacia da representação de desejos masculinos – que fetichizam, inclusive, relações sexuais entre mulheres de maneira completamente desrespeitosa (porque a serviço do prazer dos homens), usurpadora (o que são aquelas unhas compridas?) y violenta (por que eles insistem na inquiestionabilidade da penetração com objetos fálicos como absolutamente necessária?);
entre outras contribuições não-lembradas, imensuráveis ou, mais propriamente, incabíveis aqui. essa cena de sexo tornaria, no entanto, mais fácil a categorização dessa narrativa. "literatura lesbiana pornô". a não ser que, em algum momento dela, surgisse um diálogo do tipo:)

L. vira!
S. quê?
L. vira?
S. ... pra quê?
L. quero comer seu cu.
S. [se afastando] ai, que tosca! que brochante[5], putz.
L. que foi? [irritada]
S. [sentindo a lubrificação ir embora] isso é jeito de pedir?
L. de outro jeito ia ficar ridículo! você não quer, é isso?

(a resposta pode ser fatal. tanto pra quem lê, porque sexo anal é um tabu, quanto pra elas, uma vez que pode desencadear uma longa discussão sobre diferenças entre ceder y conceder, tema caro a muitos relacionamentos. nesse ponto, a narrativa poderia perder a credibilidade conquistada até então tornando-se risível, pela possibilidade quase irrefutável do tom pastelão que o suposto diálogo anterior evocaria, mas ela também poderia retomar o caráter pedagógico - então mais primário pelos diálogos forçados sobre a importância da gradação de introdução digital anal, a imprescindibilidade de lubrificação constante em todas as fases do processo – já que não produzida no/pelo canal retal – e, talvez o mais importante, o cuidado de não usar a mesma mão/dedos usados na introdução anal pra tocar ou penetrar a buceta, sem lavar. de qualquer forma, não acrediamos que assumir tal caráter habilitasse esta história a fazer parte de material escolar, por exemplo. a própria extensão do texto dificultaria tal acesso. o cansaço que surge derrepentemente na narrativa se assemelha ao cansaço de laura, a outra personagem, de quem pouco falamos. a história se passa, afinal, em sua casa. é uma casa de fundos pequena, recém limpada y arrumada por Conceição, a faxineira negra da mãe de laura. laura tem, ainda menos que sua mãe mas também perceptíveis a um olhar atento, traços evidentes de uma negritude repetidamente forçada a se misturar, condenada ao desaparecimento[6] mesmo. talvez a avó materna que jamais conheceu fosse preta ou já mestiçada, mas esse desencontro é só mais um dos fatores que contribuem pra sua auto-impercepção racial. sua mãe tem uma pele forçadamente clara, cabelos semanalmente descoloridos e "tratados"[7], plástica facial ("afilamento" nasal, botox), e muito orgulho por ter casado as duas outras filhas com homens brancos, louros, da pele "toda de uma só cor", como costuma dizer. hoje, 3 anos após expulsar a filha de casa por finalmente descobrir sua óbvia lesbiandade, veio fazer uma visita com fins humanitários e diplomáticos (bodas – performance familiar demanda quadro parental sem abalos ou deserções aparentes) mas tudo que conseguiu foi arrumar outro conflito histórico. ao ver o vidro rachado das fotos recolhidas às pressas na gaveta, simone – consciente tanto de sua negritude como dos privilégios que tem a despeito dela, y em contraste com a precariedade econômica (contingente ou deliberada, isso ainda não é sequer uma dúvida) da vida de sua namorada, pra quem ainda não soube como perguntar "você sabe que é negra" e de quem ainda não conhece muito da história familiar além da relação conflituosa com a mãe – percebe. provavelmente perguntará "como ela tá"

L. a faxineira??
S. não, boba. sua mãe.
L. igual.
S. como você tá?
L. melhor agora.
S. xavequeira! [riem]

depois, talvez, se abraçariam, dançariam na sala/cozinha, se beijariam, podem até dar gargalhadas no meio do gozo uma da outra, ou se sentar pra lanchar, molhar as plantas, conversar, tomar banho juntas, dormir – mas isso não poderemos descobrir com precisão. então fica assim, só sugerido.)




[1] "discutir a relação", "discussão da relação" etc
[2] o que pareceria com "fofoca" mas, em termos feministas, chama-se mais adequadamente de uma "politização da intimidade"
[3] escala de precarização
[4] história imaginada y escrita no brasil, américa latina, hemisfério sul do planeta terra, no ano de 2008 do calendário gregoriano.
[5] há chance de um uso que não remeta a falocentrismo?
[6] um texto mais militante usaria "embranquecimento"
[7] idem, mas "desfrizados" ao invés de "embranquecimento"

Posted at 11:27 pm by kinetic
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25.9.07
minúcias

acordo no meio do nada. são 3 e 15 da manhã. nada é um quarto que não é meu, estou numa cama pequena e minha cabeça lateja. tenho aos pés o que vejo: lençóis empurrados contra a parede, como se derrotados numa briga contra o calor. quero abrir uma janela mas não sei ainda se há janelas. tudo que vi até agora foi rolando os olhos pelo que tenho mais perto: uma cadeira, rádio-relógio, logo na frente meus peitos espaçados, e adiante os lençóis na parede ao pé da cama. vou tentar inclinar a cabeça, o que vai aumentar as pontadas. alguma coisa mais em mim lateja. rolar o nariz pra direita, devagar, depois esquerda: minha bochecha encontra uma mancha fria de baba no travesseiro, na parede oposta uma janela. destrancada. está tão quente que vou ate lá abrir essa janela ou está tão quente que vou ficar aqui prostrada, derretendo? outras partes de mim mandam mensagens incompreendidas, trago as mãos na cara e não está tão escuro que eu não possa ver o preto da sujeira embaixo das unhas, mesmo curtas. mais um sinal: minha bexiga. não vou mijar nessa cama desconhecida. junto daquele, outros sinais, se fazendo nítidos: sede. a boca toda grudada. um tipo de peso nos olhos, além das pálpebras. decido que preciso levantar, abrir a janela, ir ao banheiro; mas qual será a seqüência de coisas me demora mais momentos longos ali deitada. quanto mais eu demorar mais urgente será o banheiro, e talvez eu esteja usando isto como uma maneira consciente, mas preguiçosa, de finalizar minha decisão. em todo caso, sei que preciso começar a estimular minhas pernas. de jeito que vou descer lentas as mãos pela barriga, desviando pelas laterais do quadril já bem lá no baixo ventre, tateando o lado de fora das coxas displicentemente, e de volta ao macio de dentro, esticando com cuidado os braços até onde eles alcançarão. talvez aí eu encontre uma ou outra passagem dolorida, o que poderia ser facilmente identificado como um (ou mais) hematoma, mas essa confirmação só será possível quando eu estiver sob a luz amarela do banheiro. o banheiro, que vou descobrir com os olhos ainda tentando largar a penumbra do quarto, é todo de ladrilhos coloridos, terá uma banheira embaixo do chuveiro, um bidê do lado da privada (ambas as porcelanas gastas, ferragens em estado intermediário de ferrugem), a cor da pia acompanhando o resto e em cima dela estará, obviamente, o espelho. que evitarei. mas isto não terá acontecido enquanto eu ainda estiver na cama flexionando meus joelhos e suspendendo os pés rentes ao forro amassado da cama, trazendo-os pra perto de minha bunda ao mesmo tempo em que vou girando os quadris len-tamente pra fora da cama. e com os pés em suspensão descendente é que vou achar, do lado da cama, no chão, a carne descansada da parte de trás da coxa direita de alguém. até então eu não saberia que ele1 tinha estado ali desde o começo, e vou pensar aliviada que esse torpor me obrigando a fazer tudo bem arrastado é que me deu a sorte de não ter pisado no homem de maneira brusca, acordando ele. o que não podia acontecer enquanto eu não soubesse quem ele é e o que está fazendo ali. então tento pisar fora dele e encontro um espaço livre de chão. vou andar devagar pelo escuro até aquele banheiro, acender a lâmpada, sentar na privada fria pra mijar. confirmar as manchas esverdeadas na coxa. sentir dor. mijar tanto que parecem 10 minutos. me lembrar que ontem bebi. não bem uma lembrança, mais uma suposição garantida pelo volume daquele jato barulhento de urina. já no final, pingos esparsos caem na água do vaso fazendo um barulho engraçado, quase ritmado. não tem papel. vou me levantar e um fio fino de molhado vai descer devagar por dentro de minhas pernas, chegando até o chão? me volto pra água e ela tem um tom mais escuro que a urina normalmente. não vou me preocupar, estou muito ocupada tentando entender o que é que dentro de mim vai me empurrando pra porta, de volta pro quarto, pra longe do espelho. o que não quero ver? meus olhos inchados de chorar? minha cara roxa de apanhar? maquiagem borrada me deixando com cara de puta às 3 da manhã? e de volta ao quarto meus olhos vão ter que receber de novo a penumbra. eles vão se acostumar até conseguirem distingüir a janela, a cama, o homem deitado no chão, e perto dele roupas que foram largadas conforme foram tiradas: primeiro minha saia, depois minha calcinha, uma blusa de botões e, finalmente, o sutiã que segurava meus peitos moles2. ia ser pensar nisso e segurá-los. reativamente. estarão molhados de suor onde encontram a primeira dobra de gordura da barriga mas não vou mais querer abrir a janela desse quarto. vou querer voltar pra cama e dormir. posso estar muito cansada depois de ter lutado a noite toda contra as investidas primeiro sutis, depois explícitas, logo violentas e, finalmente, forçadas deste homem, me levando a ter desistido de negar, em algum momento, e me rendido à sua penetração. isso explicaria não só os hematomas como a dor que senti ao mijar. uma outra explicação possível é a da noite de sexo violento: eu conscientemente apertando as pernas uma contra a outra (estando completamente lubrificada a ponto de ver a umidade deixar brilhante o prisma sugerido pelo encontro entre minhas coxas e púbis), forçando o amante a segurá-las com força pra conseguir abrir, um simulacro perverso no jogo da sujeição invertida. o suposto amante, não tendo conseguido, me seguraria pelos pés, levantando-os, virando minha bunda pra fora da cama pra achar um caminho pra penetração, e me virando com tanta pressa ia acabar levando minha cabeça de encontro à parede, explicando a dor. ou a dor de cabeça é resultado de uma porrada? o estuprador, não conseguindo de maneira sutil, explícita, violenta ou forçada qualquer tipo de consentimento, acabaria por decidir, afinal, que estando desacordada não poderei resistir de forma alguma. então ele me desmaiaria e, depois de ter metido onde, como e quanto quisesse o que quer que quisesse meter em mim, ia me deixar dormindo na sua cama de solteiro, pouco espaçosa pra nós, enquanto se deitaria no chão pra dormir? quero pensar que isso seria uma gentileza absurda na situação prevista, mas fosse possível que ele estivesse bêbado como eu mesma devo ter estado, até isso faria algum sentido3. ele vai se mexer no chão, trocando um braço pelo outro no apoio à cabeça. o relógio vai dizer 3 e 18 da manhã. eu vou voltar pra cama, me deitar na cama, voltar a dormir.




1 Assumindo de antemão, mas com alguma segurança, que seja mesmo um homem.

2 Em nenhum momento haverá referência às roupas da outra pessoa.

3 Estranhamente, não há nenhuma evidência física (como latas ou garrafas, e até mesmo copos) que justifique a possibilidade da bebedeira.

Posted at 09:51 pm by kinetic
Comments (3)  




22.1.07
47.

eu sonhei que estuprava virginia woolf.
a coisa toda se passou muito rápido, era uma cena com pouca movimentação, tensa, muito sangue - v. w. estava com um casaco grande de pele (imagino que sintética) na neve e eu a via de um ângulo muito especial e por isso entendi, depois que acordei, que eu é que a estava estuprando.
o casaco era vermelho e demorei uns tantos segundos pra distingüir o que era sangue e o que era sua roupa, mas o sangue era o que estava espalhado em postas escuras perto dos braços dela, ao redor do pescoço, e era opaco de uma maneira que contrastava totalmente com o desespero dos olhos dela, e sua boca se movimentando em espamos sem som.
eu não me senti culpada no sonho porque, até acordar, não tinha entendido, como já disse, que era eu quem a estuprava. a imagem durou muito pouco tempo, rápida como um sonho de cair que faz você acordar num susto, mas depois dela eu não consegui exatamente acordar - fiquei trancada entre o desaparecimento das imagens e o abrir meus olhos, sair do cobertor, esticar o corpo.
eu tentei gritar mas sabia que ainda não estava acordada. tive que ficar calma e decidi encarar isso como minha própria punição por ter estuprado, e possivelmente estrangulado, virginia woolf.

Posted at 10:50 pm by kinetic
Comments (1)  




16.1.07
46.

lá fora a máquina faz PLOP PLOP, cerca de 4 ou 5 vezes por segundo, às vezes mais rápido, às vezes mais devagar, mas nunca na mesma altura. é como uma frase que começa mais alta e vai murchando e no final te dá um susto, aumentando de novo.
eu não quero olhar pela janela que é pra não estragar minha idéia com a visão de uma máquina simples, amarelada, meio suja pela terra e gasta, quando na minha cabeça o que há é uma puta velha e gorda, de pele esverdeada, com olhos de boneca, que fuma pelo cu uma daquelas cigarrilhas longas, que querem deixar a gente mais elegante. PLOP PLOP, o barulho de cada tragada.
ela está deitada num divã (1), assim de lado, com a cabeça apoiada na mãozinha fofa, unhas curtas, vermelhas, roídas. um sorriso de quadro e os cabelos pretos, sebosos, caindo num ângulo de menos de 45 graus com relação ao bracinho. falo assim esses diminutivos mas ela é uma mulher grande, escamosa.
de qualquer forma, vamos logo deixá-la pra lá. mas não antes de lembrar que: ela usa um vestido de seda japonesa, o vestido é roxo. ou o vestido é verde e a pele dela é arroxeada? eu não sei. e agora não vou saber nunca mais, porque não resisti e abri uma fresta da persiana, procurando a máquina.
o blo blo blo continua mas tudo que vejo é um quadrado de terra e fundações que parecem ruínas, e mais barulhos de outras máquinas, e na distância vozes de homens conversando ou decidindo alguma coisa (2).
o ruim de morar num canteiro de obras é isso, o barulho indefinível. não o barulho em si, mas é que ele nunca pára. não deixa a gente dormir. às vezes invade seus pesadelos, deixando tudo com uma trilha sonora repetitiva, metálica, angustiante (3).
e na verdade não tem nada além do ruim de morar num canteiro de obras, só o ruim mesmo (4). poeira, barulho, degradação ambiental e desvios na calçada. e se já é ruim morar-se em um, deve ser péssimo trabalhar lá, embaixo do sol e da chuva e das ordens dos donos das construtoras. todos parecem panacas com seus terno-e-gravata caríssimos, mais aquelas botas ridículas e os capacetes amarelos do equipamento de proteção individual.

(1) obviamente um divã de veludo
(2) e às vezes parece também uma piada ou comentário maldoso sobre alguém
(3) que dura muito pouco tempo, porque logo torna-se alta o bastante pra te acordar
(4) achei importante esclarecer isto pra que ninguém ficasse com a impressão de que, a seguir, viria uma frase como "mas o lado bom da coisa..."

Posted at 06:56 pm by kinetic
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6.1.07
45.

uma música no rádio vai implorando pra ficar com o que quer. pra mim também seria a primeira vez. mas agora é de novo esperar o passo lento das horas, esperar passar, olhar através de uma fresta da cortina se ainda é noite.

nós voltamos pra lugares assim milhares de vezes durante nossa vida mas cada vez parece sempre a primeira e você fica implorando pra que seja a última.
acho que sou dessas pessoas fatalistas mesmo. não tenho o tipo de esperança que você tinha. não entro de cabeça, uma vez depois da outra, pensando que isso é a primeira vez mesmo sabendo que vou bater a cabeça. eu queria que fosse a última vez.

eu não queria estar de volta a esse lugar. eu queria estar no lugar de três semanas atrás. dormindo numa barraca na varanda do terceiro andar. mas estou de volta ao meu quarto e aos barulhos da obra que nunca me deixa dormir.

Posted at 09:46 am by kinetic
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22.12.06
44.

o que você vê do lado de dentro não é igual ao que vem de fora: verde, laranja, pontos de luz subindo como fumaça engasgada (ou ainda as marcas onduladas da água na areia).
mas quem é você assim tão de dentro, quem somos nós? e o laranja de dentro agora se parece com o rubro, até mesmo roxo - uma pancada dias depois -, do pedaço de céu visto pela grade de segurança da varanda.
há palavras que não podem ser ditas. a melhor maneira seria transformá-las em uma dessas visões de cores complementares, difusas, borradas que se fundem atrás de suas pálpebras fechadas.
você dorme, eu sonho.

Posted at 12:12 am by kinetic
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