dictaphone


16.1.07
46.

lá fora a máquina faz PLOP PLOP, cerca de 4 ou 5 vezes por segundo, às vezes mais rápido, às vezes mais devagar, mas nunca na mesma altura. é como uma frase que começa mais alta e vai murchando e no final te dá um susto, aumentando de novo.
eu não quero olhar pela janela que é pra não estragar minha idéia com a visão de uma máquina simples, amarelada, meio suja pela terra e gasta, quando na minha cabeça o que há é uma puta velha e gorda, de pele esverdeada, com olhos de boneca, que fuma pelo cu uma daquelas cigarrilhas longas, que querem deixar a gente mais elegante. PLOP PLOP, o barulho de cada tragada.
ela está deitada num divã (1), assim de lado, com a cabeça apoiada na mãozinha fofa, unhas curtas, vermelhas, roídas. um sorriso de quadro e os cabelos pretos, sebosos, caindo num ângulo de menos de 45 graus com relação ao bracinho. falo assim esses diminutivos mas ela é uma mulher grande, escamosa.
de qualquer forma, vamos logo deixá-la pra lá. mas não antes de lembrar que: ela usa um vestido de seda japonesa, o vestido é roxo. ou o vestido é verde e a pele dela é arroxeada? eu não sei. e agora não vou saber nunca mais, porque não resisti e abri uma fresta da persiana, procurando a máquina.
o blo blo blo continua mas tudo que vejo é um quadrado de terra e fundações que parecem ruínas, e mais barulhos de outras máquinas, e na distância vozes de homens conversando ou decidindo alguma coisa (2).
o ruim de morar num canteiro de obras é isso, o barulho indefinível. não o barulho em si, mas é que ele nunca pára. não deixa a gente dormir. às vezes invade seus pesadelos, deixando tudo com uma trilha sonora repetitiva, metálica, angustiante (3).
e na verdade não tem nada além do ruim de morar num canteiro de obras, só o ruim mesmo (4). poeira, barulho, degradação ambiental e desvios na calçada. e se já é ruim morar-se em um, deve ser péssimo trabalhar lá, embaixo do sol e da chuva e das ordens dos donos das construtoras. todos parecem panacas com seus terno-e-gravata caríssimos, mais aquelas botas ridículas e os capacetes amarelos do equipamento de proteção individual.

(1) obviamente um divã de veludo
(2) e às vezes parece também uma piada ou comentário maldoso sobre alguém
(3) que dura muito pouco tempo, porque logo torna-se alta o bastante pra te acordar
(4) achei importante esclarecer isto pra que ninguém ficasse com a impressão de que, a seguir, viria uma frase como "mas o lado bom da coisa..."

Posted at 06:56 pm by kinetic

 

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