dictaphone


25.9.07
minúcias

acordo no meio do nada. são 3 e 15 da manhã. nada é um quarto que não é meu, estou numa cama pequena e minha cabeça lateja. tenho aos pés o que vejo: lençóis empurrados contra a parede, como se derrotados numa briga contra o calor. quero abrir uma janela mas não sei ainda se há janelas. tudo que vi até agora foi rolando os olhos pelo que tenho mais perto: uma cadeira, rádio-relógio, logo na frente meus peitos espaçados, e adiante os lençóis na parede ao pé da cama. vou tentar inclinar a cabeça, o que vai aumentar as pontadas. alguma coisa mais em mim lateja. rolar o nariz pra direita, devagar, depois esquerda: minha bochecha encontra uma mancha fria de baba no travesseiro, na parede oposta uma janela. destrancada. está tão quente que vou ate lá abrir essa janela ou está tão quente que vou ficar aqui prostrada, derretendo? outras partes de mim mandam mensagens incompreendidas, trago as mãos na cara e não está tão escuro que eu não possa ver o preto da sujeira embaixo das unhas, mesmo curtas. mais um sinal: minha bexiga. não vou mijar nessa cama desconhecida. junto daquele, outros sinais, se fazendo nítidos: sede. a boca toda grudada. um tipo de peso nos olhos, além das pálpebras. decido que preciso levantar, abrir a janela, ir ao banheiro; mas qual será a seqüência de coisas me demora mais momentos longos ali deitada. quanto mais eu demorar mais urgente será o banheiro, e talvez eu esteja usando isto como uma maneira consciente, mas preguiçosa, de finalizar minha decisão. em todo caso, sei que preciso começar a estimular minhas pernas. de jeito que vou descer lentas as mãos pela barriga, desviando pelas laterais do quadril já bem lá no baixo ventre, tateando o lado de fora das coxas displicentemente, e de volta ao macio de dentro, esticando com cuidado os braços até onde eles alcançarão. talvez aí eu encontre uma ou outra passagem dolorida, o que poderia ser facilmente identificado como um (ou mais) hematoma, mas essa confirmação só será possível quando eu estiver sob a luz amarela do banheiro. o banheiro, que vou descobrir com os olhos ainda tentando largar a penumbra do quarto, é todo de ladrilhos coloridos, terá uma banheira embaixo do chuveiro, um bidê do lado da privada (ambas as porcelanas gastas, ferragens em estado intermediário de ferrugem), a cor da pia acompanhando o resto e em cima dela estará, obviamente, o espelho. que evitarei. mas isto não terá acontecido enquanto eu ainda estiver na cama flexionando meus joelhos e suspendendo os pés rentes ao forro amassado da cama, trazendo-os pra perto de minha bunda ao mesmo tempo em que vou girando os quadris len-tamente pra fora da cama. e com os pés em suspensão descendente é que vou achar, do lado da cama, no chão, a carne descansada da parte de trás da coxa direita de alguém. até então eu não saberia que ele1 tinha estado ali desde o começo, e vou pensar aliviada que esse torpor me obrigando a fazer tudo bem arrastado é que me deu a sorte de não ter pisado no homem de maneira brusca, acordando ele. o que não podia acontecer enquanto eu não soubesse quem ele é e o que está fazendo ali. então tento pisar fora dele e encontro um espaço livre de chão. vou andar devagar pelo escuro até aquele banheiro, acender a lâmpada, sentar na privada fria pra mijar. confirmar as manchas esverdeadas na coxa. sentir dor. mijar tanto que parecem 10 minutos. me lembrar que ontem bebi. não bem uma lembrança, mais uma suposição garantida pelo volume daquele jato barulhento de urina. já no final, pingos esparsos caem na água do vaso fazendo um barulho engraçado, quase ritmado. não tem papel. vou me levantar e um fio fino de molhado vai descer devagar por dentro de minhas pernas, chegando até o chão? me volto pra água e ela tem um tom mais escuro que a urina normalmente. não vou me preocupar, estou muito ocupada tentando entender o que é que dentro de mim vai me empurrando pra porta, de volta pro quarto, pra longe do espelho. o que não quero ver? meus olhos inchados de chorar? minha cara roxa de apanhar? maquiagem borrada me deixando com cara de puta às 3 da manhã? e de volta ao quarto meus olhos vão ter que receber de novo a penumbra. eles vão se acostumar até conseguirem distingüir a janela, a cama, o homem deitado no chão, e perto dele roupas que foram largadas conforme foram tiradas: primeiro minha saia, depois minha calcinha, uma blusa de botões e, finalmente, o sutiã que segurava meus peitos moles2. ia ser pensar nisso e segurá-los. reativamente. estarão molhados de suor onde encontram a primeira dobra de gordura da barriga mas não vou mais querer abrir a janela desse quarto. vou querer voltar pra cama e dormir. posso estar muito cansada depois de ter lutado a noite toda contra as investidas primeiro sutis, depois explícitas, logo violentas e, finalmente, forçadas deste homem, me levando a ter desistido de negar, em algum momento, e me rendido à sua penetração. isso explicaria não só os hematomas como a dor que senti ao mijar. uma outra explicação possível é a da noite de sexo violento: eu conscientemente apertando as pernas uma contra a outra (estando completamente lubrificada a ponto de ver a umidade deixar brilhante o prisma sugerido pelo encontro entre minhas coxas e púbis), forçando o amante a segurá-las com força pra conseguir abrir, um simulacro perverso no jogo da sujeição invertida. o suposto amante, não tendo conseguido, me seguraria pelos pés, levantando-os, virando minha bunda pra fora da cama pra achar um caminho pra penetração, e me virando com tanta pressa ia acabar levando minha cabeça de encontro à parede, explicando a dor. ou a dor de cabeça é resultado de uma porrada? o estuprador, não conseguindo de maneira sutil, explícita, violenta ou forçada qualquer tipo de consentimento, acabaria por decidir, afinal, que estando desacordada não poderei resistir de forma alguma. então ele me desmaiaria e, depois de ter metido onde, como e quanto quisesse o que quer que quisesse meter em mim, ia me deixar dormindo na sua cama de solteiro, pouco espaçosa pra nós, enquanto se deitaria no chão pra dormir? quero pensar que isso seria uma gentileza absurda na situação prevista, mas fosse possível que ele estivesse bêbado como eu mesma devo ter estado, até isso faria algum sentido3. ele vai se mexer no chão, trocando um braço pelo outro no apoio à cabeça. o relógio vai dizer 3 e 18 da manhã. eu vou voltar pra cama, me deitar na cama, voltar a dormir.




1 Assumindo de antemão, mas com alguma segurança, que seja mesmo um homem.

2 Em nenhum momento haverá referência às roupas da outra pessoa.

3 Estranhamente, não há nenhuma evidência física (como latas ou garrafas, e até mesmo copos) que justifique a possibilidade da bebedeira.


Posted at 09:51 pm by kinetic

carla
December 7, 2007   05:54 PM PST
 
prefiro repetir o comentário "a tati é grande".
Guilherme
November 13, 2007   06:54 AM PST
 
eu adoro esse texto, a Tati é grande
^Ä^
October 2, 2007   02:24 PM PDT
 
É foda...
 

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