(então a história é assim: bate na porta. ela abre a porta. entra e abraça ela - a namorada. diz que tá muito cheirosa. ouve a resposta. sabe. sabe que ela não usa perfume. então pergunta:)
SIMONE: é cheiro de mulher? [quase afirmando.]
LAURA: se eu que tô com perfume, é né. [meio debochada...]
SIMONE: você não usa perfume. [acusativa]
LAURA: minha mãe veio aqui. [classificação do tom: indisponível]
(então é uma história sobre ciúme monogâmico?)
SIMONE: já conheci tua mãe. ela não cheira assim.
LAURA: que nariz de leproso hein?
SIMONE: "leprosa."
LAURA: a expressão que é assim, "nariz de leproso".
SIMONE: mas o nariz é meu, então é "leprosa". não muda de assunto.
(segue-se uma longa D.R, irritante o bastante pra não precisar ser reproduzida aqui. se reproduzida, talvez entendêssemos as disposições do casal, suas percepções acerca de confiança, companheirismo, ciúme, desgaste, até amor. talvez desse até pra conhecermos algum fato que justificasse o comportamento de uma, ambas ou ainda terceiras não presentes aqui mas protagonistas de momentos diversos em que a relação do casal tivesse outros termos, diferente, digamos, de monogamia compulsória)
LAURA: a moça da faxina tirou quando limpou! procura na gaveta!
SIMONE: que moça da faxina? quem é essa moça da faxina? não era só sua mãe?
LAURA: ela veio com a minha mãe, é a faxineira dela, não falei?
(pausa grave y pesada na D.R. não conhecemos simone muito bem – a exposição sumária do encontro impede algum aprofundamento –, mas agora poderia ser pertinente explicitar que ela é uma mulher negra de pele marrom-avermelhada, o que não torna impossível, aliás, ao contrário, torna até previsivelmente não surpreendente uma descoberta da possibilidade de que sua mãe tivesse sido empregada doméstica ou faxineira antes de conseguir terminar, à noite, não em supletivo mas no ensino regular - pra garantir mais solidez -, os estudos que a permitiriam passar num concurso público pra funcionária administrativa de uma escola, onde escolheria o turno noturno por razões nítidas. essa simples informação sobre simone, contudo, nos traria o risco de tornar a história muito panfletária, o que pode desagradar o público não-militante, assimilado, conformado ou, simplesmente, que fez escolhas de estar-no-mundo diferentes das nossas. seria melhor, então, continuar escrevendo uma história sobre ciúme? se sim, ela prosseguiria com um diálogo maizomenos assim:)
S. você tá mentindo.
L. você tá louca! não agüento isso, muito ciúme!
etc
(, seguido de uma cena de sexo lésbico quente, sexo de reconciliação, em que fosse descrita minuciosamente a trepada das personagens, mencionando-se, inclusive, o uso de camisinha (masculina recortada, no caso de falta da feminina. "tecnologia lesbiana"; a feminina é cara, enquanto a outra é distribuída, mesmo que aquém da demanda, em postos de saúde, por exemplo) y outras medidas de sexo lésbico seguro. essa cena poderia, até, trazer à história:
a) apelo popular, talvez pela repercussão que cenas de sexo costumam ter numa sociedade tão pretensamente liberada mas extremamente conservadora y reprimida como esta;
b) reação dos setores (reacionários) daquela citada sociedade (igreja, estado, família – cada qual com seu aparato policial, i.e., quando não usam o mesmo);
c) uma pedagogia sexual pra mulheres, tão escondida, semi-inexistente, precária, necessária y sabotada pela supremacia da representação de desejos masculinos – que fetichizam, inclusive, relações sexuais entre mulheres de maneira completamente desrespeitosa (porque a serviço do prazer dos homens), usurpadora (o que são aquelas unhas compridas?) y violenta (por que eles insistem na inquiestionabilidade da penetração com objetos fálicos como absolutamente necessária?);
entre outras contribuições não-lembradas, imensuráveis ou, mais propriamente, incabíveis aqui. essa cena de sexo tornaria, no entanto, mais fácil a categorização dessa narrativa. "literatura lesbiana pornô". a não ser que, em algum momento dela, surgisse um diálogo do tipo:)
L. vira!
S. quê?
L. vira?
S. ... pra quê?
L. quero comer seu cu.
S. [se afastando] ai, que tosca! que brochante, putz.
L. que foi? [irritada]
S. [sentindo a lubrificação ir embora] isso é jeito de pedir?
L. de outro jeito ia ficar ridículo! você não quer, é isso?
(a resposta pode ser fatal. tanto pra quem lê, porque sexo anal é um tabu, quanto pra elas, uma vez que pode desencadear uma longa discussão sobre diferenças entre ceder y conceder, tema caro a muitos relacionamentos. nesse ponto, a narrativa poderia perder a credibilidade conquistada até então tornando-se risível, pela possibilidade quase irrefutável do tom pastelão que o suposto diálogo anterior evocaria, mas ela também poderia retomar o caráter pedagógico - então mais primário pelos diálogos forçados sobre a importância da gradação de introdução digital anal, a imprescindibilidade de lubrificação constante em todas as fases do processo – já que não produzida no/pelo canal retal – e, talvez o mais importante, o cuidado de não usar a mesma mão/dedos usados na introdução anal pra tocar ou penetrar a buceta, sem lavar. de qualquer forma, não acrediamos que assumir tal caráter habilitasse esta história a fazer parte de material escolar, por exemplo. a própria extensão do texto dificultaria tal acesso. o cansaço que surge derrepentemente na narrativa se assemelha ao cansaço de laura, a outra personagem, de quem pouco falamos. a história se passa, afinal, em sua casa. é uma casa de fundos pequena, recém limpada y arrumada por Conceição, a faxineira negra da mãe de laura. laura tem, ainda menos que sua mãe mas também perceptíveis a um olhar atento, traços evidentes de uma negritude repetidamente forçada a se misturar, condenada ao desaparecimento mesmo. talvez a avó materna que jamais conheceu fosse preta ou já mestiçada, mas esse desencontro é só mais um dos fatores que contribuem pra sua auto-impercepção racial. sua mãe tem uma pele forçadamente clara, cabelos semanalmente descoloridos e "tratados", plástica facial ("afilamento" nasal, botox), e muito orgulho por ter casado as duas outras filhas com homens brancos, louros, da pele "toda de uma só cor", como costuma dizer. hoje, 3 anos após expulsar a filha de casa por finalmente descobrir sua óbvia lesbiandade, veio fazer uma visita com fins humanitários e diplomáticos (bodas – performance familiar demanda quadro parental sem abalos ou deserções aparentes) mas tudo que conseguiu foi arrumar outro conflito histórico. ao ver o vidro rachado das fotos recolhidas às pressas na gaveta, simone – consciente tanto de sua negritude como dos privilégios que tem a despeito dela, y em contraste com a precariedade econômica (contingente ou deliberada, isso ainda não é sequer uma dúvida) da vida de sua namorada, pra quem ainda não soube como perguntar "você sabe que é negra" e de quem ainda não conhece muito da história familiar além da relação conflituosa com a mãe – percebe. provavelmente perguntará "como ela tá"
L. a faxineira??
S. não, boba. sua mãe.
L. igual.
S. como você tá?
L. melhor agora.
S. xavequeira! [riem]
depois, talvez, se abraçariam, dançariam na sala/cozinha, se beijariam, podem até dar gargalhadas no meio do gozo uma da outra, ou se sentar pra lanchar, molhar as plantas, conversar, tomar banho juntas, dormir – mas isso não poderemos descobrir com precisão. então fica assim, só sugerido.)