ela pegou as coisas y foi embora. como eu não tava em casa, me senti traída. pras nossas amigas em comum eu afirmei publicamente que tinha me sentido tão traída - pra algumas eu disse até que mais traída - quanto daquela vez que ela saiu, ficou bêbada, agarrou outra numa festa y ficou na porta de casa até amanhecer o dia porque achava que não merecia dormir comigo.
fiquei chateadíssima com um milhão de coisas. quis morrer. quis chorar, chorei. arranquei todas as fotos pregadas nas paredes, dentro da portinha do armário, joguei fora a cafeteira italiana que ela comprou pra mamãe num brechó pelo seu milésimo aniversário. ela ainda não sabia que mamãe odiava ganhar presente pra casa. mamãe não sabia que namorávamos.
essa é outra das coisas que me deixa mais triste. ela não tinha entrado só na minha vida... não é uma coisa de jogar na cara, não é isso. também porque isso não é o que mais acaba comigo. mas não tenho como esquecer a cara passada de mamãe quando voltamos do mercado naquele dia, quase noite. com um doce pra ela. nem um bilhete, recado no espelho, nada:
só a porta do lado dela do armário aberta, as gavetas vazias pra fora. uma calcinha minha perdida ali. na hora pensei 'poxa, ela podia pelo menos ter colocado numa das minhas gavetas', mas acho que ela fez isso pra me deixar mais solitária ainda. fico procurando coisas que me façam sentir raiva dela. que é pra ver se assim paro de chorar sofrer y me sentir coitadinha.
quem falou que a coisa mais importante da vida é amor-próprio não sabe de porra nenhuma. a coisa mais importante da vida, pra mim, nesse momento em que acabei de perder ela, é exatamente poder dormir com ela embaixo do teto mofado da sala. depois de termos trepado em silêncio pra não acordar mamãe. nossas respirações indo y vindo juntas, ficando devagar.
café da manhã amargo. a novela de mamãe. agora ela pode assistir tv até mais tarde, sozinha na sala de novo só dela. não sei se ela ficou realmente triste mas feliz não ficou. só vi ela triste quando viu que eu era sapatão. mas depois aceitou numa boa, elas conviviam até melhor que nós duas. não sei por que ela foi embora, eu tinha trazido seu doce preferido naquele dia.
Posted at 06:11 pm by kinetic