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20.8.06
quase chegando o fim do mês. ela pensava em
fazer um bolo. pensava em fazer presentes. pensava em escrever cartas. um dia,
e era o mês acabando. um bom presente é colocar numa caixa um pedaço de céu,
mas nem sempre as coisas boas são, necessariamente, viáveis. o relógio
caminhando de maneira mais exata do que caminham as noites, os dias, a vida
mesma. se ela pudesse pegar só um pedaço da noite minutos depois que a tarde
começou a acabar, guardar aquelas cores mais sólidas que são interrompidas,
aqui, ali, cada vez mais, por pontos minúsculos de luz... o céu é muito grande,
não ia sentir falta. um pedacinho só numa caixa. nem que fosse pra forrar a
caixa. e aí, dentro da caixa, um pedaço do bolo. em cima da caixa, um bilhete. fechada em laço simples, de fita.
Posted at 10:22 pm by kinetic
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11.8.06
enquanto no embaixo do braço sentia o mesmo cheiro, ainda que muitas vezes mais novo, de coisa doce apodrecendo que vinha do quintal da casa de sua vó – terra comendo restos virando terra plantada de horta – ele ia tentando fazer seu "membro" acordar. (às vezes odiava sua mãe pelo recato ridículo que tinha herdado dela: nunca se referir "às partes" se não por nomes assépticos, e sentia inveja dos outros muleques da escola que chamavam meu pau, meu pinto, benga sem a menor vergonha, com muito orgulho até. mas sua mãe era tão boazinha, coitada, quando nunca atrapalhou ou perguntou nada depois das tardes que ele e gê passavam no quarto, em silêncio. ele ouvia os passos dela diminuindo perto da porta, a sombra que entrava pela fresta parava um único instante e ela, em seguida, retomava os passos mais rápido, como se tivesse acabado de acordar num susto de sonhar que estava caindo, ou tentando dissimular uma falha. e depois era o ranger de dentes disfarçado de sorrisos calorosos, a gentileza pegajosa, uma solicitude humilhada: o que ela está tentando? sabia que ela morria de raiva, mas morria muda em sua dignidade)
agora, de novo no quarto, pensava no corpo de gê, em como sua pele parecia cobrir sem sobra nem falta, sem o menor esforço toda e qualquer parte de carne, osso, vísceras que pudesse ser vista, tocada, sentida, imaginada. via o abismo na dobra que as pernas de gê faziam, batata contra coxa, os pés no alto quando deitaram na cama. via como a palma das mãos dele mesmo, igualzinho na mão de gê, parecia ainda mais clara que a das pessoas brancas. e todas essas lembranças vinham tão solutas quanto o ar abafado nas tardes do quarto, ele sentia que podia tocá-las se tentasse e adivinhava elas explodindo e se derramando no ar: a risada vasta de gê.
ele podia se lembrar exatamente de como estava sentado quando sentiu a primeira fisgada, veio com uma latência no cu e tudo foi ficando úmido enquanto gê passava a língua na boca como quem não sabe de nada, as pálpebras brilhosas espalhadas sobre os olhos. ele podia agarrar com as duas mãos o desejo que vinha com essa lembrança, era tanto que talvez ele não tivesse precisado segurar firme seu "membro", friccionar apertando, vem e volta devagar, devagar primeiro, volta e volta, sentado bem no braço do sofá em que gê parecia criança fingindo que está dormindo, os olhos fechados piscando e uma lassidão nos lábios entreabertos, pequena contração do lado esquerdo, sempre o lado esquerdo, de onde puxava seu sorriso largo.
agora estava onde esse desejo? mesmo se pegasse seu "membro" e segurasse apertando, puxando, ele ia responder com nada além daquela indiferença. ele pensava e tentava, sentia falta de gê, lembrava. ele queria conseguir sozinho. ele cansado. chorando e suava. suor escorrendo pelo pescoço e as lágrimas morrendo na boca. salgado. passar a língua nos lábios não, que isso denunciava mais ainda a ausência de gê. isso doía. ia treinar na frente do espelho: pica, meu pau, rola. e isso também não era ridículo?
Posted at 07:42 pm by kinetic
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31.5.06
os homens continuam trabalhando, às vezes mais de dez da noite, do lado
de fora de meu mundo. 3x4m de perfeição caótica, puro nervo, e verde.
posso proteger meus ouvidos da máquina de cimento, mas e eles? melhor
fingir que não me importo e continuar: dedos duros, pretos de terra. lá
fora a mesma cidade todos os dias, ou parece, olho com cuidado depois
do sol morrendo. sinto falta de algumas pessoas mas não sei, (conseguir
ou tentar) desfazer o pacto de solidão. agora? ainda? os dias vão
contando: seis meses, dezesseis dias, horas ininterruptas, ignoram se
consegui ou não. não: a cidade são lembranças desmanchando um único
borrão de saudade e mágoa, um pássaro pequeno e feio cai do ninho de
concreto, eu me lembro: pegue ele com a mão (há muito cuidado mas algum
nojo). devolva ao cinza. e rindo o resto do dia / uma tarde quente como
aquela / um homem segura o retrato e chora / evitar os retratos
desde... / meu nome e uma dedicatória /
medo de virar um procura-se na rodoviária mas qual a exata diferença entre pessoas desaparecidas e as invisíveis? eu não sei.
Posted at 02:02 am by kinetic
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26.4.06
acordo sentindo um gosto de nó no céu da boca. penso 'vai passar logo'
sem ainda saber que não passaria. fora da cama o chão é frio e sentada
na beira da cama vejo o abismo que me espera no resto do dia. nas
roupas, papéis, coisas jogadas com poeira e cabelo no chão. tem que
haver uma maneira de acordar descansada, e eu quero muito descobrir.
mas além dos sonhos fugindo pelo canto dos olhos na constatação urgente
e atrasada do dia tem essa obra - e os piões da obra que começaram cedo
a levantar as ruínas. e um pouco antes disso a assobiar. não sei por
que mas acordo com uma melodia antiga na cabeça martelando mais que os
operários: 'faz três noites que eu não durmo, olará, pois perdi o meu galinho...' mas não são 3 noites, nem era um galinho.
Posted at 10:27 pm by kinetic
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11.4.06

nem um minuto antes da chuva chegar aqui: o céu lá na frente ficou
verde e venta tanto, faz um frio tão molhado, que você chega a se
sentir parte das coisas. você ouve a chuva, sente o cheiro dela, ouve o
vento falando e depois gritando, as primeiras gotas muito pequenas
alcançam você e venta tanto que você mal consegue abrir os olhos.

eu queria te dizer isso, mas agora não compartilhamos nada além de
lembranças e mágoas. eu me lembro de quando você disse que se lembrou
de mim enquanto nadava na piscina salgada porque era um dia de chuva e
você queria que eu tivesse visto.
você dizia que a piscina parecia um mar de lágrimas, no começo era
estranho mas depois você se acostumava. é o tipo de lembrança inútil
que só me maltrata e que eu queria muito esquecer, mas nunca vou
esquecer isso. é cada vez mais estranho e não consigo me acostumar.
Posted at 08:14 pm by kinetic
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10.4.06
se você não fizer isso agora o tempo vai continuar passando
fazer não vai fazê-lo parar mas se você não fizer isso agora você nunca
mais vai se lembrar de que um dia você esteve com uma pessoa que fazia
tudo parecer especial
todas as outras pessoas ao redor de vocês, e especialmente vocês
e, mais especialmente ainda, você
se você não marcar essa imagem, não grudá-la na parede, não deixá-la
olhando tudo que você tem feito (andar pela casa) nos últimos 5 ou 6
meses, você vai acabar se esquecendo do que foi que deu errado
você precisa riscar a imagem na parede até rasgar a imagem e rasgar a parede
porque um dia você esteve com uma pessoa que fez você parecer especial
mas agora ela não está mais aqui, está? e tudo que você pode fazer é
ver como as pessoas são ordinárias, todas elas, algumas conseguem ser
só medíocres, mas você é só mais uma das pessoas ordinárias
e agora não tem mais parede, não tem mais imagem, não tem mais ninguém
ao seu lado pra fazer você se sentir de maneira alguma, mas essas
coisas estão todas tão grudadas em você que não te deixam se mexer,
dormir ou sequer respirar direito, e você olha pra dentro de você e vê
que está tudo está tão sujo e bagunçado quanto no seu quarto
você não vai conseguir esquecer isso
e é melhor mesmo que você não esqueça
assim você vai sempre saber o que é que te trouxe aqui
esse lugar não é o lugar mais romântico da cidade
é só seu quarto bagunçado e sujo
mas se você precisa de algum tipo de frase de estímulo pra sentir que
teve qualquer compensação nessa história toda, bem, acabamos aprendendo
que essa solidão é mais real que o maior eco do mundo, não é mesmo?
sim, é. e vamos nos agarrar a isso por enquanto.
Posted at 12:00 am by kinetic
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20.2.06
tenho acordado todos os dias e me perguntado, "muito bem, e agora o
quê?". tenho que tentar me ocupar das coisas mais banais e agregar a
elas um valor especial pra que eu sinta qualquer motivação. é um
teatrinho grotesco, mas tem sido necessário.
tenho pensado em coisas absurdas, cada vez mais absurdas, ao mesmo
tempo em que tento me ajustar à vida padrão, medíocre, massacrante e
extremamente confortável das pessoas normais que vivem no mundo real, e
isso me faz vomitar por dentro. quanto uma pessoa pode
agüentar disso tudo? quanto é que eu posso? os dias vão passando em
velocidade absurda, vejo tudo transcorrendo em câmera lenta mas não dá
tempo nem de respirar, e eu provavelmente não conseguiria.
hoje acordei e não tive coragem nem de olhar pela fresta da persiana
através da janela, o que é uma pena: cada dia é um dia a menos pro
horizonte tosco da minha varanda, cada dia é uma fila de tijolos a mais
na obra desse prédio novo. isso me trás uma sensação de estar
sendo roubada mais um pouco, mas roubada de quê? porque, tenho sentido
há tantos dias que já viraram anos, simplesmente abri mão de tudo, quer
dizer, de tudo que não me tenha sido tirado antes, por meu desinteresse
ou por pura zombaria. outra coisa notável é o arsenal de
máscaras que podemos carregar, por dentro todas as coisas estão
absolutamente lascadas mas ainda assim você vai rir das piadas mais
ridículas e responder às pessoas que está tudo bem. só uma coisa eu não
admito: bom dia no elevador. é o cúmulo da rendição.
Posted at 10:57 am by kinetic
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17.2.06
é um tiroteio, não adianta muito se esconder atrás de um ponto de
ônibus. especialmente se ele for feito de uma única camada fina de
tijolos, pintados de azul. acredito até que não adiante nada, mesmo.
algumas pessoas vão se jogar no chão mas é como se aquilo fosse tão
rotineiro. como se estivessem só deitando-se na grama e fossem
conversar sobre o preço de alguma verdura na feira, ou a novela da
véspera.
na frente da casa há um garoto de uns 8 ou 10 anos com uma camisa
marrom e short cinza, meio que pendurado no portão, tentando fazer um
escudo contra a polícia, protegendo os homens que estão dentro da casa.
a casa é de tijolos simples, como a parada, e a rua é de terra batida.
quando a polícia chega tocando a sirene uma única vez vai levantando um
pouco de poeira atrás de si, pouco mesmo, já que vem em baixa
velocidade.
algumas mulheres ficam aborrecidas porque o tiroteio pode não ter
acabado quando seus ônibus passarem, já que é provável que o ônibus não
vai parar vendo o tiroteio, mas elas também não estariam seguras lá
dentro.
alguns homens falam sobre loteria e futebol, todos eles parecem
desempregados ou subempregados, e de resto, todas as pessoas parecem se
conhecer: as da rua conhecem as da casa, vice-versa. a polícia não
chega a ser "pessoas".
pela claridade o dia está longe de terminar mas os tiros vão diminuindo
do lado de fora e parece que ninguém se machucou dessa vez. homens
desempregados cortejam mulheres de bobs e lenço na cabeça. o ônibus
chega.
Posted at 12:12 am by kinetic
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13.2.06
hoje tive que ir ao centro da cidade, de manhã. mas fiz tudo rápido pra
ficar o menor tempo necessário por lá, tanto menos sinto meus nervos
sendo esmagados naquele lugar quanto menos fico. mais tarde tive que ir
na cidade velha: quase tudo no lugar, algumas coisas rearranjadas mas
basicamente tudo no lugar (mas eu não). fiquei meio que andando num
sonho velho, ou num sonho que alguém me contou - lembranças nítidas,
mas imprecisas, como se não fossem inteiramente minhas.
por exemplo, a rua cheia de árvores que passa por cima da segunda
avenida. umas praças, bancos, quadras de esporte, restos de comida meio
escondidos em moitas e algumas outras coisas de indigentes. eu sonhava
muito com aquele lugar, mais do que já tinha estado lá, já que morava
na avenida de baixo e não andava muito por ali. mas é exatamente como
sonhei, inclusive a atmosfera, inclusive a luz do sol passando pelas
árvores, inclusive um tipo de medo de ser estuprada ou atropelada ou
simplesmente perdida.
aliás, em quase o tempo todo andando pela cidade velha fiquei pensando
sobre acidentes espetaculares, como: e se uma asa de avião caísse em
cima da passarela enquanto estou atravessando, e com o impacto eu seria
jogada na pista em alta velocidade onde um caminhão, também em alta
velocidade, ia finalmente me estraçalhar? fatalmente, é claro. porque
certamente, ficando tetraplégica ou um vegetal, eu ia escolher uma
saída. já tem sido muito difícil com tudo funcionando, teoricamente, em
perfeitas condições.
quando voltei pra essa casa, quase à noite, já na saída do trem senti
uma espécie de tristeza por todos esses prédios, as obras
intermináveis, nenhuma sombra. ainda na cidade velha, na rua em cima da
segunda avenida, tinha uma obra grande, uma casa de 3 andares sendo
construída. no alto, onde um dia haverá uma maravilhosa varanda, estava
um pedreiro bem novo com um espelho daqueles laranjas, pequenos,
penteando o cabelo, levantando um topete, pra ser mais exata. final de
expediente, final de tarde, eu já tinha diminuído um pouco as passadas,
mas ainda não tinha feito tudo que tinha ido fazer ali.
Posted at 09:06 pm by kinetic
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12.2.06
domingo é um dia feito pra matar as pessoas. de tédio, solidão,
realidade. ainda tem quem consiga se divertir com clube, futebol,
churrasco, casa de parente, cinema, mas idiotas como eu não têm porra
nenhuma a fazer além de escrever, isso se tiverem a sorte de conseguir
escrever alguma coisa decente - o que claramente não estou fazendo.
domingo é o primeiro e o último dia da semana, logo é uma sentença de
que todos os outros dias vão ser a mesma merda, só que as lojas vão
estar abertas e isso significa que alguém tem que trabalhar. mas quem
não tem que trabalhar também está na pior. aliás, não quem não tem que trabalhar, mas quem não pode trabalhar. quem não tem que trabalhar é outra história.
eu não queria ter que trabalhar. mas há alguns trabalhos que
seriam perfeitos pra mim: queria que alguém me pagasse pra ler
livros. só pra ler. não pra editar, nem revisar, nem nada, só ler. nem
mesmo ter que dizer se gostei ou não. ou então, dormir. não testar
colchões ou travesseiros ou analisar distúrbios do sono, eu queria que
simplesmente alguém chegasse e dissesse "vou te dar tanto
por mês pra você dormir, mas tem que dormir muito, 14 horas por dia, no
mínimo". eu ia dizer: "com ou sem remédios?", "tanto faz", e eu
novamente: "ok, posso começar agora mesmo?" mas é claro que
eu ia tirar folga aos domingos. domingo é um dia especial, feito pra
passar raiva, morrer de tédio, sentir cansaço sem ter feito nada,
solidão entrando por baixo da porta, não adianta fechar a janela. aí eu
abri a janela pra ver que cara tinha o dia, mas só o que consegui ver
foi mais um prédio em frente, com muitas janelas fechadas.
então eu digo pro desmond dekker, "me leve de volta pra áfrica também.
nunca estive lá, mas me leve de volta". ele, é claro, não me responde,
mas eu sei que ele sabe que na áfrica nunca é domingo, e esse é mais um
dos grandes segredos da humanidade que idiotas como eu nunca vão
descobrir.
Posted at 10:50 am by kinetic
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you get so alone at times that it just makes sense
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