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ela ligou dizendo que viria com alguma coisa pra conversarmos. fiquei apreensiva porque boa notícia as pessoas não se agüentam, falam logo. natalinas é assim: uma camada de esmalte cintilante por baixo, com duas camadas de vermelho rebu. natalinas porque tem cor de bola de árvore de natal. aquelas bolas ocas de vidro fosco pintado de vermelho cintilante. ela ainda não chegou. vou passar pano na casa. acho que ela vai terminar comigo. será que ela vai terminar comigo? sonhei que ela queria terminar comigo. quando eu tinha uns 14 anos conheci a camila, a primeira mulher por quem me apaixonei. ela era amiga da bárbara, com quem tenho contato até hoje. encontrei com a bárbara no pátio y ela tava junto. ela me viu com aquelas unhas enormes pintadas de vermelho rebu y perguntou 'você não tem vergonha de usar esmalte de puta não?'. não lembro o que respondi, mas ela disse 'sempre sou sincera, é meu maior defeito'. ela é escorpiana. sinceridade pode mesmo ser um defeito, não a sinceridade em si, mas a falta de cuidado que costuma acompanhar ela em situações desse tipo. 'quero ficar com a fulana. desculpa, mas eu sou sincera'. ou o mais descuidado ainda, que se finge de cuidadoso porque teve aviso prévio: 'eu te disse que eu era assim, fui sincera'. como isso eximisse as pessoas de alguma responsabilidade. agora ela ligou há algumas horas dizendo que passava aqui depois do trabalho pra gente conversar *uma coisa*. eu ainda nunca tinha trepado com mulheres, então não poderia adivinhar que aquelas unhas enormes poderiam ser um forte indício de que eu não era sapatão. na época eu não 'era', mesmo. mas agora são unhas natalinas muito curtas. com o fetiche do esmalte saindo de dentro dela meio melado. porque aí, embaixo do gozo dela, dá pra ver, embaixo das camadas vermelhas, o cintilante. quando ela chegar vou tentar parecer naturalmente não-ansiosa. mas ela sabe que sou ansiosa. posso disfarçar dizendo que é secura pra gente trepar logo. ela pensa que eu adoro lavar louça. porque sempre que ela vai lavar alguma coisa eu digo 'não, preta, deixaí que eu lavo'. eu não adoro, pelo contrário, acho péssimo porque acaba com meu esmalte. mas ela deixa a torneira aberta tempo demais, às vezes ela vira pra mim pra dizer alguma coisa com o prato já enxaguado na mão mas a água fica lá, caindo. isso me deixa doida. então prefiro estragar o esmalte. usar luva eu não uso, que é a derrocada das mulheres contra a glamourização da confinação doméstica. então eu prefiro me fuder do que usar um símbolo do refluxo? prefiro trepar com ela do que conversar a relação. é uma merda dizer isso, mas é verdade. outras primatas fazem assim. tecnologia de ponta pra resolução de conflito. mas a gente não, costuma ficar horas discutindo coisas irracionalizáveis pra depois tentar conciliar na cama, tendo que transformar mágoa em tesão. se eu abrir a janela, quando chegar ela reclama. do frio, do vento. posso dizer que eu queria secar logo o esmalte. mas se ela reclamar de mim, o que vou poder dizer? não dormi bem o resto da noite depois daquele sonho. fiquei me sentindo oca de vidro por dentro. acho que tudo bem ela querer terminar comigo. mas se ela reclamar de alguma janela que não posso fechar, o que vou poder fazer? além de sentir falta dela. eu não tenho medo de ficar sozinha, tenho medo da tristeza que vou sentir se ficar sem ela. |
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